quarta-feira, 12 de março de 2014

A noite é pobre e a vida é a miséria que ressurge dos becos
Dos bêbados, das bêbadas
Deles e delas
Das pedras atiradas na calçada
Dos tombos, do escoro, dos encostos
A noite são de todos e de todas
Que voltam para algum buraco
Para dentro de algum casaco ou de algum saco
sujo de vômito, sujo de besteiras e de baboseiras
Faladas, escarradas
Aliás, qual é seu saco?
De que ralo você vem?
A noite foi feita para alguém que tem o que chorar
O que mentir, o que contar
Alguém para lembrar
Ninguém para abraçar
A não ser bêbados, e bêbadas
Na noite ninguém é santo, mas todo mundo reza
Se você fuma terá companhia
Se não fuma, tenha um isqueiro se quiser companhia
Aliás, acompanhados todos continuam sozinhos, solitários

Em uma cidade nem sempre os esgotos são iguais, mas é certo
Certo que quando amanhece, todos seguem para o mesmo rio
Até os que estão fora do esgoto
Você está?
Se está, você também fede
Mesmo se não anda pela noite
Junto dos bêbados e das bêbadas
Dos salafrários e das ordinárias
Dos que riem alto, das que dão gargalhada

Das que dançam sozinhas com um copo entre os seios
Lembrando de algum rato
Que não está mais no mesmo mato
Que mato sem coelho,
Cheio de urubus

Dos que nem se lembram a que horas chegou
Nem que horas tem de ir
E se droga para esquecer
E esquece para se drogar
A noite é o eterno esquecimento de si mesmo
Pois ''dela'' nunca se esquece

Algumas caronas, alguns contatos
Todo mundo é fraco
Nunca aceite um casaco
De bêbados, nem de bêbadas
Eles nunca vem sozinhos
Talvez um abraço e algum amaço
Não aceite o casaco
Não de noite
A noite é pobre e fria
O casaco é apenas uma simpatia
Noutra manhã terá de devolver
E para o beco terá de voltar

A noite é uma bela porcaria
Que me consome, que te consumiu
Está consumado
Em nossos olhos molhados,
Nos copos sujos, nos pulmões impuros
Nos dentes amarelados
Em nosso riso frágil
Em nossas mãos trêmulas
Em nossas pernas bambas,
em nossas vistas turvas
Na cirrose de cada dia
No infarto, na neurose
Nos sentimentos em eterna meiose

Quis dizer de noite
Dessa noite,
Tão diferente e igual, a tantas outras noites
Noites vagabundas, insalubres
Vadias, nauseantes, ofegantes
Gostosas e viciantes
A qual eu quero pertencer e me deixar convencer
De que as noites malditas trás em si,
O que os dias claros escurecestes em mim.

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